• Pamela Nogueira

3 O tráfico é um escape

DE VOLTA AO JARDIM

Capítulo 3


Você, pai e mãe, ou que talvez pense em ser um dia: prepare-se para as peripécias da sua prole caso você não entenda realmente o que é necessário para ser um bom pai e uma boa mãe, e saia por aí fazendo filhos. Jesus ainda disse: "Ai das mulheres que, naqueles dias, estiverem grávidas ou amamentando, pois haverá grande angústia na terra e grande ira contra o povo." (Lucas 21:23) Eu não desacredito que em breve tudo isso acaba em fogo, e se você não tiver culhões para criar um ser humano que preste, não solte uma criança inocente nesse mundo de podridão.


O que você faria se a sua única filha de 14/15 anos, já com um pé na rebeldia, convocasse a família para uma reunião com intuito de apresentar o seu mais novo "namorado sério", que já tinha mais de 20 anos registrados? Os meus pilares foram a minha avó e meu avô, assembleianos roxos; minha mãe, perdida nas suas paixões; e meu pai, jogado naquela função sem paraquedas num lago de crocodilos. A reação deles pode se assemelhar com a sua: quando Preto (apelido do namorado) chegou na sala do segundo andar com o seu bigode, aba reta e bermuda da Cyclone, os adultos da sala pareceram preocupados!


Independente das aparências, Preto, que era branco feito uma vela, não era um rapaz ruim. Trabalhava, tinha uma vida humilde e estava longe de ser um criminoso. Soube pouco sobre a sua vida, era suficiente que a gente desse uns amassos pelas ruas do bairro e ele me contasse tudo sobre o Morro de Jaburuna. Minha atenção sempre era despertada quando o assunto era posto à mesa. Outro ponto positivo para mim era a proximidade do seu trabalho com a minha escola. Eu adorava quando ele me buscava, todo caracterizado no perigo, e fazia com que os prováveis da escola que viessem a praticar bullyng mantivessem a sua boca calada, agora que o meu namorado era um suposto bandido. Mesmo ele não sendo, ninguém precisava saber. Sua idade e aparência requeriam respeito e isso já era suficiente para mim. "Pamela, a bolada", estava pronta para contracenar no ensino médio.


A falsa segurança que eu enxergava nas pessoas erradas deram alimento ao meu lobo mais violento, de andar e fala diferentes, que encarava as pessoas nos olhos e via como inimigos todos que estavam dispostos a invadir o meu espaço particular. Dos treze aos 15, eu amava cantar raps com apologia ao crime, andar com minishorts enfiados na bunda, e blusas que deixavam meu corpo de fora. E eu não tinha curva nenhuma! Tentei gostar de funk, mas mesmo nessa época ele era intragável. Tudo bem falar de drogas, mas a palavra ''buceta'' sempre me enojou. Muitos homens me trouxeram repulsa, e eu adoraria escrever todos os nomes e sobrenomes aqui, se fosse possível.


Tive outros relacionamentos, antes dos meus 17 anos, que poderiam ter me levado a lugares muito mais profundos (como uma cova, rsssss, rindo de nervoso!). Um deles ficou extremamente fora de si quando uma fofoca sobre uma suposta carta lida chegou aos seus ouvidos. Disseram que eu havia mostrado sua carta romântica para outro traficante do morro, e que nós dois rimos pelas suas costas. Mesmo preso, ele me me escrevia cartas em guardanapos. Quando finalmente saiu, fui convidada a subir o morro para encontrá-lo. Apesar dele não ter sido um namorado, tínhamos uma relação íntima, e fui saltitante morrendo de saudade. No morro, na frente de outras pessoas, ele ameaçou explodir um fogo de artifício no meu rosto, gritando e segurando o isqueiro nas mãos:

- Você deu a minha carta para o Vitor ler?!

Eu não havia mostrado carta para ninguém, mais tarde ele entendeu que os fogos de artifício deveriam ser explodidos em outra face.


Eu amava as minhas cartas, todas que recebia. Apesar do turbilhão de falsidade que eu lia nas cartas da Nathália, eu ainda gostava de recebê-las. Tenho muitas delas guardadas até hoje em um caderno de lembranças. O Vitor, que foi um namorado, também havia me mandado cartas quando foi preso por trafico e porte ilegal de arma. Ele também parecia um adolescente em busca de respeito nos lugares errados, assim como eu. Havia um fogo e raiva incontidos no seu coração, incompreendidos no seio da família. Fui "loucamente" apaixonada no Vitor, à minha maneira, e ignorava o fato dele não retribuir. Estava na cara que ele só queria sexo, e eu, ainda virgem e sem pretensão de mudar esse cenário, prolongava até onde podia e continuava alimentando aquele romance com poemas. Inclusive, os dois que postei no domingo passado foram escritos pra ele, há anos atrás. Fiz algumas correções, mas o sentimento é o mesmo. O link é esse.


Uma parte de mim via o problema dos meus relacionamentos e deixava pra lá, acreditando que, eventualmente, daria certo. Eventualmente, aqueles amores realmente me enxergariam. Era uma vida perigosa e sem futuro, mas a milimétrica esperança de um possível romance promissor me estancavam. O meu relacionamento em casa não eram dos melhores, obviamente. Minha família estava frustrada de como as coisas haviam mudado da água para o vinho comigo. Eu estava cansada das pessoas da igreja, mas na escola passei a me sentir menos incomodada depois que os colegas de classe viram a minha relação direta com o tráfico de Jaburuna. Eu tinha "amigos", e as coisas "boas" chegavam com mais facilidade.


Fui convidada para uma festa pela Nathalia na época. Funk, música alta, cerveja, tudo que eu detestava, mas era uma festa com meus novos amigos e ficar em casa não era uma opção. Roni (o atual namorado) pediu que eu fosse até a sua casa antes de ir para o local. De acordo com ele, deveríamos ir juntos, mesmo a sua casa ficando do lado oposto da festa e estar fora da minha rota. Sair de casa sem levantar suspeitas nunca foi problema pra mim, muitas vezes eu somente saía sem dar satisfação. Com a indumentária da Cyclone, chapéu de aba reta e bigode, Roni me esperava na porta da sua casa com um sorriso no rosto. Todos gostavam de andar com roupas de marca compradas com o dinheiro do tráfico ou do dinheiro suado das suas mães.

- Você está sem bolsa? – Roni perguntou. - Preciso que você me ajude.


Roni mostrou a arma na cintura e um saquinho branco nas mãos. Na época, eu não fazia ideia de que aquilo era cocaína, mas eu já sabia que era droga e que não era maconha. Eu nunca tinha visto um baseado enrolado, inclusive. Pela minha reação, Roni mudou a postura frustrada pela falta de bolsa, colocou a arma na sua própria cintura e a cocaína entre as nossas mãos (dadas). A caminho da festa, passamos por uma viatura da polícia e eu tremi da cabeça aos pés. Suando frio, fiquei preocupada de molhar a droga entre as mãos e ele ficar chateado comigo novamente. Se eu tivesse uma bolsa...

- Relaxa, eles não dão batida em casais apaixonados. – beijou minha cabeça despreocupado e passamos pela viatura sem criar alarde.


Em algum momento da festa, no meio daquele monte de gente e música alta, Nathalia me achou e veio até mim com cocaína espalhada na palma da mão e o nariz completamente sujo. Ela não parecia se importar, e nem as pessoas a nossa volta.

- Você quer? – gritou para ser escutada.

- Não! – respondi rápido. Ela continuou cheirando e compartilhando na roda. Eu só queria sair dali.


Não lembro de como cheguei em casa nesse dia - não por que eu estava bêbada, mas porque realmente não lembro. No outro dia a minha mãe ficou sabendo sobre a minha ida à festa, e ela acreditou quando disseram que eu estava usando cocaína junto com o resto dos convidados. Eu nunca gostei de mentiras. Apesar da verdade doer algumas vezes, dificilmente não opto por ela, mas não sou hipócrita em dizer que nunca menti. Quando a minha mãe me acusou severa e erroneamente, foi um soco no estômago. Porque não era apenas uma acusação sem fundamento, ela preferiu acreditar na palavra de um namorado mentiroso e imbecil que estava na mesma festa que eu, provavelmente usando mais droga e bebendo mais álcool que muitos adolescentes presentes.

- Ele viu você usando!

Talvez deve ter visto sim, num cenário ilusionista dos efeitos entorpecentes no organismo. Eu não mentiria sobre aquilo, tentei fazer com que ela me escutasse, mas ouvir nunca foi o seu forte. Quem diria que eu cresceria fazendo o mesmo, não é?! O castigo de Deus até a quarta geração (posto no livro de Êxodo, no capítulo 20) é a própria repetição dos erros antigos, até que alguém abra os olhos.

Com todas essas problemáticas surgindo no meu meio ambiente, decidi largar os traficantes e afinar o meu gosto apenas para usuários. Com a conexão com a minha família já perdida, passei a entender que seria eu contra o mundo. Sobre ser um bom pai e uma boa mãe? Estejam presentes. E não só em corpo. Só o corpo não será suficiente. E nunca, nunca, deixe de mostrar ao seu filho o que ele precisa para alimentar o seu lado espiritual. O que você ensina aqui para ele, reflete no que ele viverá em espírito. A alma é que importa.

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