• Pamela Nogueira

1 A inocência é uma virtude cega

Atualizado: Abr 12

De volta ao Jardim

Capítulo 1

As memórias antes dos meus doze anos são fumaça dissipada, mas em partes do ar onde o vento parou, vejo a densa mancha cinza de lembranças marcantes. Também fiz ventar muitas lembranças quando mais velha. Como afirma Freud, somos uma casa: salas, cozinha, quartos, banheiros... E mesmo não estando todos os ambientes iluminados, os cômodos estão lá. Sei que iluminar todos os meus cômodos de uma só vez poria minha casa abaixo, mas isso não me impede de tentar entender a arquitetura dos mesmos e limpá-los de pouco a pouco, completando-os com móveis necessários e não meramente decorativos.


Uma das minhas manchas densas de fumaça não dissipada é uma lembrança viva e marcante da minha infância, de quando ainda ia para escola com o transporte da Tia Aninha - um ônibus escolar que tinha prazer em falar que era um dos melhores da cidade. Eu sempre gostei de ter e estar entre os melhores, mesmo que muitas vezes julgasse errado o que era saudável para mim.


Eu abria meu toca-fitas com músicas gravadas do rádio e CDs (originais) que a minha mãe comprava (ora pra mim ora para ela mesma). Eu tinha coleções de Sandy e Junior e Xuxa (as febres do momento), ela colecionava Marisa Monte e Adriana Calcanhoto. A fita ainda girava no toca-fitas e eu estava agoniada querendo saber como ela funcionava lá dentro. "Qual o processo tecnológico que faz essa música, que horas antes estava naquele CD original e melhor que o pirata, chegar aos meus ouvidos?". Eu rodava o toca-fitas nas mãos, o fone gigante nos ouvidos, a fita cassete girando visivelmente do lado de dentro, mas eu precisava ver por onde a fita passava e como era o processo completo.


Quando cedi a tentação e tentei abrir a porta do toca-fitas, por cima do fone de ouvido uma voz feminina gritou em repreensão:

- Vai quebrar!

Na mesma hora fechei a fresta aberta e olhei para cima assustada com o pensamento fixo na minha mãe. "Ela me descobriu", pensei. Mas não havia ninguém na varanda. Ninguém no quintal, ninguém na rua, ninguém nas casas vizinhas. Será que alguém gritou e se escondeu? Se não, qual seria o interesse de Deus reprimir a curiosidade de uma criança sobre o funcionamento de um toca fitas? Nas duas hipóteses, deixei de lado e esperei o ônibus comportada, enquanto escutava Sandy Júnior, Xuxa, Marisa ou Adriana.


Não conto como uma experiência espiritual, eu era muito nova e acredito que, sim, alguém pode ter gritado e se escondido atrás de qualquer coisa. A dúvida fixou essa lembrança em um cômodo com luz na minha casa, pois nunca gostei de dúvidas. É uma característica do meu caráter formado que já me levou para os piores lugares e estados emocionais: a vontade de ir até o final para saber todos os limites e possibilidades. O temor a Deus sempre trouxe à luta os meus lobos, meu yan yin. Com meus poucos anos de idade, a ideia de ter sido alertada por um Ser Celestial que eu deveria deixar em paz o toca-fitas, reprimiu minhas vontades me fazendo voltar atrás. Quem dera eu ter sido fácil assim em outros momentos sinistros que vivi.


Com doze anos eu jogava bola na rua com saia no joelho e blusa de manga - quente ou frio, era minha indumentária. Eu não ligava para o que minha tia mais nova vivia dizendo: "Larga de ser brega!". Eu me pergunto: ela se arrependeu das críticas sobre meus conceitos espirituais da época quando me transformei na adolescente mais rebelde daquela casa? Independente de suas implicâncias, eu não me importava de ser a criança brega da rua se isso agradava a Deus. A normalidade é relativa, culturalmente falando, apesar da verdade histórica ser uma só. Por mais que junte-se as peças, a verdade histórica completa nunca será transcrita. Na minha normalidade e do que havia aprendido sobre a história da Bíblia - até então -, não era agradável a Deus eu vestir shorts e blusas de alcinha que mostrassem meu corpo - magrelo e sem curvas. O que a Assembléia de Deus e a minha avó pregavam: era pecado. Cortar o cabelo também era pecado. Se eu quisesse brincar na rua, que fosse com saia no joelho e blusa de manga. Muito ‘’reteté’’ e fogo santo no asfalto quente, a inocência era palpável aos meus doze.


Foi nessa idade que despertei interesse no namoro (sem beijo na boca, claro, isso era para o noivado). Felipe (vou chamá-lo de Felipe) e eu éramos uma fofura gospel, íamos a igreja e Escola Dominical juntos. De segunda a sexta pela manhã, Felipe deixava uma carta para mim no buraco da varanda onde o funcionário da Cesan media nossa água. Eu acordava ansiosa pela carta – muitas vezes tão cedo a ponto de vê-lo pela janela do quarto da minha avó. Saboreava a carta escrita com figurinhas de bala coladas e desenhos coloridos, e deixava outra no lugar, recheada de poemas e textos autorais. Eu não colava figurinhas nas minhas cartas, e confesso que não gostava quando ele o fazia. Nunca gostei de versos prontos e colados, a não ser por uma carta que recebi anos mais tarde com o Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes - mas não foi obra de Felipe. Todas as nossas assinaturas vinham com a frase “Te quero e te desejo”. Como se crianças de 12 anos soubessem a veracidade das devidas palavras.


Eu tive, por muito tempo, uma caixa recheada das cartas românticas infantis pseudo adultas trocadas com Felipe, ele era um menino de ouro. Mas com base no relacionamento que meus pais tinham, não necessariamente um com o outro, eu não estava pré-disposta a criar vínculos duradouros com meninos de ouro. Eu ainda não entendia que minhas escolhas auto-formadas me levariam a relações fracassadas até que eu me compreendesse melhor como ser humano criado no ambiente que fui. Eu me vi, ao longo dos anos, agarrada e amarrada em relações falidas, extrapolando meus limites, perdoando falsos arrependimentos, pensando compreender para apoiar e sugerir mudanças, mesmo que isso custasse minha sanidade e paz de espírito. Fui inocentemente tomando todas as decisões erradas que podia, sem nunca acreditar que as coisas dariam (tão) errado.



Banhada num falso romance aprendido nos livros, filmes e na cegueira dos relacionamentos dos adultos que me cercavam, a traição, humilhação, preconceito, machismo e carência eram comuns: eu via esperança e amor onde não, absolutamente não, havia. Estive envolvida com traficantes, bandidos, alcoólatras, narcóticos e outros distúrbios de personalidade que poderiam ter me tirado a vida, verdadeiramente, por diversas vezes. Eu cheguei no fundo do poço e cavei mais pensando achar água no subsolo, enquanto jogavam terra e merda na minha cabeça. Os danos seriam irreversíveis se eu não tivesse em Deus um pai e amigo que me protegeu ao longo dos anos e que enviou os avisos necessários para eu abrir meus olhos. E é sobre isso que falo em DE VOLTA AO JARDIM, minhas experiências espirituais que me aproximaram de Deus que serão canal para fazer o mesmo com você.


Abril, 2020.

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