• Pamela Nogueira

2 A rebeldia é um grito inaudível

Atualizado: Abr 19

DE VOLTA AO JARDIM

Capítulo 2

O número treze deu início à minha azarada rebeldia. Definitivamente, era chegada a pré-adolescência. Existe um Muro de Berlim entre uma criança de 12 anos que tanto acreditava em Deus e uma criança de 13, questionadora e irrepreensível. Não ter respostas para minhas perguntas era como um quadro abstrato sem nexo e pretexto que foi pintado pela minha família para ser venerado como arte dentro dos cômodos. Antes eu aceitava o não, até que o 13 me penetrou e largou todos os meus freios. A música "se eu largar o freio, vai dizer que sou ruim" é verídica e precisa. Eu era uma adolescente mimada criada pela avó, cheia de barreiras sobre o que era ou não de Deus, cheia de questionamentos e dúvidas a serem tiradas e sem respostas dentro de casa.


Eu gosto de respeito. Acredito que a maioria das pessoas, mas nem sempre o temos. Em muitas situações me desvalorizei permitindo a humilhação. Eu simplesmente deixava acontecer, sendo normal do meu cotidiano direta ou indiretamente. Na relativa normalidade, eu me sentia desfavorecida na escola, por exemplo. Aquelas meninas brancas de cabelo liso e famílias, teoricamente, melhores financeiramente do que a minha. Na pré-escola, perdi minha melhor amiga para uma menina loirinha de cabelos lisos e pele branca. Brenda (vou chamá-la de Brenda), você me desrespeitou quando largou a nossa amizade por ela, porque a Rebeca vivia falando mal de você. Mas as fotos deveriam ficar melhores com ela, não é?!


Eu me senti desvalorizada quando a minha mãe achou que era boa cabeleireira e cortou o meu cabelo longo num chanel torto antes da foto da escola que iria para os murais e capa de um livro biográfico com trabalhos artísticos. Ela me enviou para escola com o uniforme mais largo do guarda-roupa, sem um pingo de blush, enquanto as meninas da minha série apareceram arrumadas com seus laços e batons cereja. Outra vez, minha mãe fez uma franja no meu cabelo cacheado que ela certamente não me ensinou a pentear, colocou ela para fora do chapéu de palha e me pedia poses numa planta florida em frente a festa junina da escola. Anos depois, ela achou justo autorizar um cabeleireiro alisar meus cachos para controlar meus fios rebeldes, colocando na minha cabeça que seria a melhor solução.


Eu me sentia desvalorizada por quase não ver o meu pai. Mas quando isso acontecia era, no mínimo, desconfortável. Conversávamos pouco e um abismo nos separava mesmo sentando lado a lado no sofá. Antes dos meus 13, eu me culpava por ele ter ido embora. Tudo bem ele e minha mãe não terem suportado as diferenças quando eu ainda tinha 4 anos de idade, mas o seu afastamento subentendia que o problema era comigo: a culpa de não ser boa o suficiente para que ele saísse de onde estivesse para me visitar. Muitas vezes, passei meses sem vê-lo. Aos 13, as respostas para o meu pai não cumprir o seu papel já não me importava, e a minha avó choramingava:

- Pamela, é o seu pai! Você precisa passar mais tempo com ele!

"Por quê?", passei a pensar. Ele havia me deixado pra trás, arrumando suas namoradas, se embriagando com cerveja e seguindo com a sua vida como se não tivesse uma família. Mais tarde, quando ele arrumou uma esposa com três filhos, ficou mais implícito de que o problema certamente era comigo, me fazendo regressar um passo e alimentando uma dor sem tamanho. Toda vez que eu passava da linha e ele aparecia para me corrigir com palavras duras, eu fingia escutar e cuspia seus ensinamentos para fora de mim. Como ele poderia me entender se ele não me conhecia?


Eu me sentia desvalorizada quando a minha tia mais velha me enchia de repreensões severas, xingando-me de nojenta sem enxergar que a filha dela também era uma diaba e me emputecia. Tudo isso e outras vivências misturaram ódio, raiva e violência, alimentados ao longo dos anos. Eu explodia e colocava ele para fora sempre que não cabia em mim. Nessa fase, eu juntei britas e areia numas sacolas e panos, pendurei na árvore do quintal e batia imaginando ser a cabeça de algumas pessoas. Quando a minha prima Aline (vou chamá-la de Aline) me irritou mais uma vez, eu não decidi apenas me defender dos seus tapas para não machucá-la. Devolvi socos no seu rosto até que alguns adultos interviram. Quando uma das meninas da escola zombou de mim pensando que eu abaixaria a cabeça aceitando o que ela estava fazendo, fui para cima dela com toda violência que eu tinha contida. Quando o menino da minha escola me chamou de magrela, eu o ofendi numa medida dobrada até que todos estivessem tirando sarro da cara dele.


Quando a minha mãe reparou que seus presentes não me compravam mais, os gritos autoritários e histéricos tentaram me impor respeito e disciplina. Tarde demais, não depois de tudo o que eu já tinha visto ela fazer. Não depois dela deixar de lado a sua tarefa como mãe para se perder no meio de tantos relacionamentos incoerentes que só a fizeram mal. Então, quando ela levantou a mão para me bater, eu devolvi o tapa.

Todos eram loucos a sua maneira, loucos e não sabiam, incompreendidos por eles mesmos. Os atritos dentro da minha família eram constantes. Eu lutei por um espaço preservado com as armas que entendia ter na época: observar, persuadir, manipular, e, se não desse certo, histeria e violência me salvariam. Os ensinamentos da minha avó já não me defendiam, e as pessoas que guerreariam comigo a favor do meu espaço seguro, no meu ver, estavam no Morro de Jaburuna: bandidos e traficantes. Abrindo portas para tudo o que me afastava de Deus, fui cercada rapidamente por tais. Homens e mulheres, adolescentes e jovens envolvidos pesadamente com o tráfico, e eu no meio me achando "Pamela, a bandida" sem nunca ter visto uma folha de maconha na vida e saber o peso social do número 157.


A mãe de uma das antigas amigas da rua onde eu morava, uma vez disse pelas minhas costas que eu tinha uma mentalidade fértil. Parecia ruim quando a ouvi dizer para os vizinhos, em frente a minha casa. Ainda com poucos anos de idade, me esgueirava por baixo dos bancos da igreja me imaginando no meio de uma fase do SUPER MÁRIO, com selvas, levels e cogumelos de vida. Na infância, eu criava jogos e suas regras, histórias, montava peças de teatros e colocava todos para contracenar meus personagens, costurava roupas para as minhas bonecas Barbie, montava coreografias de músicas dos Tribalistas e Kid Abelha, escrevia os melhores textos da sala e deixava o meu professor de artes com orgulho com meus desenhos expressivos. Já na adolescência, a minha mentalidade fértil me fez criar romances em terrenos espinhosos e cegou a minha capacidade de enxergar as péssimas pessoas que estavam perto de mim, acreditando na possibilidade de triunfo naquela história bizarra que eu criava e contracenava como um suposto eu.


Uma das minha amizades ruins mais marcantes foi a Nathalia (vou chamá-la de Nathalia). Mais velha do que eu, amiga de traficantes e bandidos, amava baile funk e cocaína, e carregava todas as respostas erradas que eu precisava. Sobre homens, principalmente. Ela também tinha problemas com a sua mãe e seu pai não era presente e, assim como eu, aceitava migalhas dos adolescentes que nos relacionávamos. Nós duas trocamos muitas cartas sobre verdadeira amizade e sobre como gostávamos uma da outra, ela me apresentou seus amigos, me ofereceu cigarros e bebidas, e uma vez tramou uma história absurdamente mentirosa fazendo que algumas meninas mais barra pesadas do que ela fossem gritar na porta da minha casa procurando me dar uma surra na frente da minha família.


Mesmo na rebeldia, eu ainda era uma boa aluna, mesmo não me esforçando muito, sempre tirei notas boas notas. Segui escrevendo e cheguei a ter textos publicados no site da escola. Ainda assim, eu era estúpida o suficiente a ponto de criar um email como este: mary.jane.22@hotmail.com. Eu nunca havia fumado maconha (ainda), mas pessoas precisavam entender que eu era violenta, rebelde, tinha amigos traficantes e elas precisavam me respeitar, seja as meninas da escola ou a mãe da Letícia.


Depois do sucesso de sair de casa escondido para andar de cavalo com os meninos do morro, chegado em casa e correndo direto para o banheiro sem que minha avó sentisse a catinga do suor do animal que ficava na roupa, os engenhos futuros foram fáceis para a minha mentalidade fértil. Aos 15/16 anos, eu saia de casa escondido para visitar meu namorado menor infrator no presídio: eu, sua mãe e as minhas cartas.

Enquanto a minha avó ainda tentava me disciplinar falivelmente com a Bíblia e me levar para os cultos, minha mãe estava presa em seu próprio mundo atrás de um sentido para vida, meu pai aparecia uma vez ou outra, minha "sogra" me ensinava outra religião não cristã, outra "amiga" da escola me convidava para uma seita, Nathália me chamava para festas oferecendo cocaína (apesar de eu nunca ter usado), eu subia o morro ingenuamente achando estar cercada de pessoas que me respeitavam.


Os estranhos presentes começavam a chegar. Num sucesso da minha avó em me levar para o culto, o pregador apontou para mim de cima do púlpito: "o diabo tem uma fúria enorme contra a sua vida, pois você será ouvida por muitas pessoas." Essa foi uma das experiências espirituais que sempre voltaram a minha mente em fases distintas da minha vida. Eu entendi a fúria muitos anos depois, e ela veio de todos os lados.



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