• Pamela Nogueira

4 O aviso é um esclarecimento futuro

Atualizado: Mai 18

DE VOLTA AO JARDIM

Capítulo 4


Nós nunca entenderemos a respostas dos "por quês" na velocidade que gostaríamos. Sair da ignorância pode levar uma vida inteira. No entanto, acomodar-se distante do conhecimento é arrogante a si mesmo e a alguém que busca e o encontra, mesmo que tarde. Tarde ou ao seu tempo! É necessário que a gente se questione e formule as perguntas para que a sabedoria venha a superfície. O autoconhecimento nunca foi tão necessário, no meio da pandemia que vivemos hoje. Salomão, um dos sábios da Bíblia, explica no livro de Eclesiastes que tudo tem um tempo. Tudo tem um ciclo, com início meio e fim.


Todos os acontecimentos da minha vida estão seguindo o seu ciclo, ainda que eu tenha andado em círculos na maioria das vezes. Ainda luto para manter o caminho e não pegar atalhos. Os atalhos sempre parecem mais fáceis, mas acabam nos levando ao local de início ou retrocessos. Dar continuidade ao ciclo depois de ter perdido tempo é adio do seu propósito em vida. E o tempo é precioso, já escreveu e cantou Caetano:

"E quando eu tiver saído

Para fora do teu círculo

Tempo tempo tempo tempo

Não serei nem terás sido"

Não ande em círculos, não pegue atalhos, use camisinha e preste atenção na bula do seu anticoncepcional.

Eu engravidei do Bernardo com 17 anos. Meses antes de eu perder o Miguel (uma vida que carreguei durante seis meses), meu avô recebeu um aviso. Já havia comunicado algumas vezes à familia: "eu vou partir em breve, Deus me avisou", disse meu avô em algumas oportunidades. Quantas vezes Deus já intercedeu por você? Você tem ideia de quantas vezes Ele te livrou? Essas são perguntas cruciais para que as respostas cheguem. Elas sempre chegam. "Qual foi o propósito de Deus nas minhas tomadas de decisão e nas consequências das mesmas?" Saia da inércia de ignorá-Lo e formule as suas perguntas. Quando Deus nos testa ou nos põe a prova, é uma testificação para que nós nos conheçamos. Ele já nos conhece e já sabe das nossas falhas. Quando falhamos, a revelação é para nós mesmos. O egoísmo do ser humano nunca deixa espaço de entendimento da nossa corrupção. Pelo contrário, incende a ponto de não acreditarmos que somos tão míseros a falhar.


Meu avô foi avisado e ele acreditou, e comunicou a quem quisesse ouvir: "estou partindo em breve". Fez o seu pé de meia enquanto vivo, preparou cada dia mais o seu espírito para que, quando chegasse a hora, a certeza do paraíso lhe fosse dada. Toda família pensou que seria uma agravação da diabetes que ele lutava há alguns anos, e algumas rotinas foram adaptadas para sua saúde não deteriorar-se. O egoísmo estava na dieta: se Deus já havia avisado, por que tentamos mudar a história? Fomos surpreendidos, então, quando meu avó foi atropelado por um caminhão ao sair de casa mais cedo para fazer a feira de toda quinta.


Após mais uma briga com Bernardo (pai do Miguel), eu fui tomada pela clareza da inércia de não movimentar as peças do meu xadrez, para que aquela relação doentia com ele não me desse xeque-mate. Eu estava grávida há quase dois meses e Bernardo continuava atrás de drogas, acomodado em um emprego que não seria suficiente, e mais se preocupava com os momentos de lazer do que com os resultados dos exames que eu começava a fazer. Não parecia que tínhamos um bebê às portas nos próximos meses. O desgaste da relação se aprofundava a cada seringa que ele enfiava no seu corpo. Enquanto os danos eram concentrados em mim, não havia importância em enfiar tudo goela abaixo, cru ou quente.


Eu tentava dormir no seu quarto, mas sabia que acordaria no momento que ele abrisse o cadeado da garagem. Feito isso, começamos mais uma briga quando ele chegou completamente alterado, mais uma vez. Frustante como ele não enxergava a importância daquele momento e como parecia não fazer esforços para se tornar uma pessoa mais responsável. Foi necessário que eu sentisse as cólicas, uma revolta dentro do meu útero, para que o extinto de proteção de toda mãe fosse ligado. O medo de perder o bebê, fez eu movimentar a primeira peça. Voltei para casa pedindo ajuda da minha família para ir embora, para longe de Bernardo. Meus pais rapidamente deram baixa na matrícula da escola que eu odiava - eu cursava o terceiro ano -, e fui para o Rio de Janeiro, onde moram os meus tios e a minha prima. Bernardo, em protesto, chegou a matar dois filhotes de uma cadela de rua que eu cuidava.


Já no Rio, eu falava constantemente com meu avô no telefone. Por vezes, ele não gostava muito, mas minha avó insistia. Eu pedia bênção, ele concedia, conversávamos um pouco sobre o dia a dia, sobre os gatos que eu e ele tínhamos na casa, e eu me aquecia um pouco no som da sua voz. Sempre que ouvia, eu me lembrava do dia que ele estava largado no sofá vermelho da minha antiga casa, trocando o canal da televisão constantemente sem assistir de fato alguma notícia. Naquele dia, eu varria a casa e o olhei de relance, imaginando o teto de gesso vindo abaixo e caindo em cima do sofá vermelho. Eu correria o mais rápido possível para o proteger. Será que ele sabia disso? Que eu daria a minha vida pela dele? Será que ele sabia que eu o amava? Sempre que nos comunicávamos por telefone, eu torcia para que ele soubesse. Numa casa de 9 mulheres, eu daria o primeiro homem ao meu avô. Ele já estava empolgado com a ideia de ter um ''bacuri" dentro de casa para viver qualquer coisa que não havia conseguido com todas as suas filhas e netas. Confesso que eu estava feliz com a ideia de poder ter oferecido algo que ele tanto queria, mesmo que eu tenha pegado um atalho para isso.


Certo dia minha tia avisou que precisávamos visitar o meu avô, devido um acidente que ele havia sofrido. Quando entrei no banho, antes da viagem de retorno, senti o Miguel aflito dentro de mim. Eu já estava com cinco meses de gestação. Lembro de ter colocado a mão na barriga e o confortado: "calma, falta pouco para você ver o seu bisa". Até então, eu não sabia que meu avô já havia falecido. Meus tios mantiveram segredo para mim e a minha priminha até que estivéssemos perto da casa da minha avó, bem depois da viagem. "Falta pouco para você ver o seu bisa." Cerca de um mês depois, eu estava sangrando e tendo um aborto espontâneo no mesmo banheiro.


Foi a pior dor que já senti em toda a minha vida, e escrever sobre isso foi uma briga interna de duas semanas: a dor do parto e da partida. A notícia do falecimento do meu avô me deixou entorpecida, e não ter conseguido segurar a gestação até o final fez eu me sentir ainda mais incapaz. No velório do meu avô eu entendia a dor de todos presentes, mas a minha mente estava em fuga em outro recinto. Muitos choraram enquanto mantive meus olhos secos, sem entender (ou aceitar) o que estava acontecendo. Eu só me dei conta na hora do enterro quando a terra começou a cobrir a madeira. Aí, sim, a ferida foi exposta e não contive nenhuma lágrima. Mesmo hoje, ainda sonho que o meu avô está vivo. No sonho mais recente, ele havia forjado a própria morte para fugir com outra mulher e formar outra família, rs. As explicações que o cérebro encontra em meio ao caos interno. No estudo dos sonhos, diz-se que costumamos trazer a memória, enquanto dormimos, assuntos não resolvidos da nossa mente. Observe os seus sonhos e você vai se entender mais, muitos deles podem ser um aviso. Parte de não ter curado a morte do meu avô está ligado ao fato de que, se a minha avó não tivesse ido me visitar no Rio de Janeiro, meu avô não teria saído mais cedo para ir a feira, com a finalidade de encontrá-la em casa quando voltasse. Se não fosse por isso, ele não estaria atrás daquele caminhão. Se eu tivesse escutado os meus pais desde o início, aceitando a repreensão com amor e não com rebeldia, eu não teria engravidado e a minha avó não precisaria me fazer visita nenhuma. Mas o meu avô já tinha sido avisado. Aconteceria, de um jeito ou de outro.


Tudo que aconteceu teve propósito, função e objetificação. Entendo hoje que era necessário, mesmo que não torne a aceitação menos dolorosa. Ainda sobre avisos, a irmã do meu avô também recebeu um, pouco antes do meu útero ter dado início às contrações para o aborto acontecer. Ela foi levantada no meio da noite com o seguinte pensamento: "ore pela Pamela!". Ela e toda família já sabiam que eu estava em repouso absoluto há uma semana, tomando as devidas medicações para o meu colo uterino não dilatar mais do que já estava. O que ela não sabia era que eu estava prestes a abortar naquele mesmo dia, e que poderia ter tido uma hemorragia, falecendo mãe e filho. Quando surtei no banheiro ao ver o Miguel saindo de dentro de mim, a minha tia já havia orado uma noite anterior. Alguém seria levantado no meio da noite para orar por mim, apenas para que essa mensagem chegasse aos meus ouvidos: "mais uma vez Eu te livrei."


Como não aceitar que existe um Deus a me zelar? Cheguei a fazer questionamentos de que Ele poderia ter salvado também o Miguel. Mas dadas as dificuldades da maternidade e ao pai que ele teria - ou não, quais seriam as chances do Miguel nesse mundo cruel? Eu não tenho vergonha de dizer que não seria uma boa mãe, não com a maturidade que eu tinha na época. E hoje, a realidade de ter um filho está longe dos meus planejamentos.


A nossa mente está intimamente ligada à saúde do nosso corpo. Em situações de crises e tristeza, sempre sou tomada por perda de peso, alergias e inflamações. A doença, na maioria das vezes, começa na mente. Manter a mente sã é uma questão de espiritualidade e reconhecimento, e só é possível quando fazemos perguntas à Deus, o único que pode nos dar respostas certas. Fica uma pergunta: como não existe um Deus a nos zelar, com tantas experiências espirituais acontecendo ao seu redor? Até quando você vai se manter cego? Até quando deixará o seu corpo e mente doentes?

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