• Pamela Nogueira

O cérebro é uma máquina orgânica

DE VOLTA AO JARDIM

Capítulo 4


Como toda máquina, ele tem processo funcional até que se conclua a ação imposta. Nós ativamos o botão de ligar e fazer dessa máquina, muitas vezes, inconscientemente, sem saber de onde veio aquele impulso. A nossa máquina funcional está em constante atualização, que recebemos através das informações externas que absorvemos do meio. Tato, olfato, paladar, visão e audição: tudo o que esses cinco sentidos se deparam é transformado em um sentimento. Numa analogia, esse sentimento é uma atualização absorvida pela nossa máquina orgânica. Caso tenham assistido ao filme Divertidamente, é uma explicação perfeita para o que estou descrevendo. Todas os sentimentos absorvidos ao longo dos anos incorporam nosso sistema operacional. Muitos têm a consciência em distinguir o que é bom ou não absorver, mas um adolescente faminto mal instruído sobre as decepções do mundo come tudo o que estiver no prato.


O desconforto na escola ainda era presente, mas tudo era mais tolerável agora que todos sabiam da minha ligação com o tráfico. Por outro lado, os seios das meninas estavam grandes e fartos, e suas coxas grossas. Eu era decepcionada com meu o corpo magrelo; tudo me frustrava a sua maneira. Duas meninas que eu andava no ensino médio eram a Paloma e Micheline (vou chamá-las de Paloma e Micheline). Paloma era subordinada de Micheline e por muitos anos sofreu bullyng da mesma com os apelidos mais bizarros da escola. Por um tempo, fui mais amiga de Paloma, tentando fazer ela enxergar a amizade abusiva entre ela e Micheline. Mas Paloma queria ser amada e reconhecida como melhor amiga de Micheline, mesmo que ambas falassem mal uma da outra pelas costas. Certamente, falavam mal de mim também. Eu fingia respeitar Micheline, porque ela era mais forte do que eu e eu gostava de andar com uma menina que dava medo até no sexo oposto. Micheline ganhou espaço ofendendo até professores quando era preciso; eu me continha em agredir apenas a quem me ofendia. No meio dos alunos, o desconforto deu lugar ao entendimento de que aquela fase passaria, e aquelas pessoas não seriam mais necessárias. Eu não pertencia àquele grupo, mas enquanto estivesse no meio deles, eu viveria o meu personagem. Internei tudo o que me chateava: sorrindo quando sentia tristeza, sem demonstrar o mínimo de fraqueza (na psicologia analítica, era a persona que eu criava como metodologia de defesa).


Em Jaburuna, depois de Natália ter armado o circo para me bater na frente da minha casa (falharam), depois de um dos traficantes do morro querer estourar um fogo de artifício na minha cara (falharam), e depois de terem me oferecido drogas pesadas como cocaínas e crack (falharam), eu abri mão de subir o Morro de Jaburuna. Para vencer na vida, eu precisava estar viva. Não bastava ter um namorado supostamente perigoso, andar com a menina mais barra pesada da escola e confrontar a minha família. Para mostrar ao mundo como eu sempre conseguia o que queria, agora eu precisava ter um namorado bonito. Era eu contra todos lutando com as minhas dúvidas e incertezas, enquanto atualizava o meu próprio sistema orgânico com egoísmo. Aos 16 anos, enquanto eu ouvia funk, rap, andava de shorts curtos pelo bairro para atrair a atenção dos garotos e mostrar que agora eu também tinha curvas (mesmo que pequenas), eu conheci o Bernardo (vou chamá-lo de Bernardo). Saí do degrau "eu namoro com traficante" para "eu namoro com apenas usuários".

Bernardo era cinco ou sete anos mais velho que eu, viciado em cocaína, bares e morfina aplicada na veia. Cercado de coisas ruins, Bernardo precisava de algo melhor na vida dele, e certamente o "algo melhor" era eu - na minha concepção juvenil. Ele era o homem mais bonito de todos que já havia visto, com seus enormes olhos azuis, o cabelo loiro espesso e o corpo esguio. Eu queria o Bernardo. Ponto final. A ideia de estar apaixonada por ele me consumia, e eu já havia imaginado toda a história: ele me buscaria na escola e as pessoas veriam como ele era lindo, ele iria parar com as drogas e a bebida, voltaria a estudar, arrumaria um emprego, casaríamos e teríamos uma linda família feliz. Eu ainda andava de cavalo pelo bairro. Montada no pelo, o pai do Bernardo me chamava de Princesa do Agreste. Com um carinho enorme por mim, era sempre tranquilo poder sentar na sala com ele e a esposa, esperando Bernardo chegar da rua (às vezes ele não chegava). Assim como eu, a família de Bernardo tinha esperanças de que o filho tomasse juízo cedo ou tarde, e enxergaria o quanto eu precisava ser valorizada. Eles poderiam ter jogado uma água fria no meu rosto e me ensinando que a vida não era bem aquele conto de fadas que eu estava imaginando, mas se o filho deles tinha uma esperança, porque não tentar?

Enquanto os pais de Bernardo fugiam da realidade, eu aproveitava o meu novo espaço conquistado e esfregava na cara dos colegas da escola como o meu namorado era bonito. Era só isso que importava. Hoje vejo que, na realidade, eu pouco me importava com Bernardo, mas sim com a ideia dele como corpo presente na relação que estava dentro da minha cabeça. Eu poderia só ter tirado algumas fotos com ele e mentido sobre nossa relação. Mas eu não queria viver mentiras, porque eu precisava da certeza de saber que eu podia ter um namorado bonito e ser tão boa a ponto dele largar tudo por mim. Meu cérebro entendeu como necessidade estar no meio dessa evolução de caráter que o Bernardo passaria, e essa decisão deu início a um dos processos mais dolorosos que passei na vida.

Eu focava nos detalhes bons e dissipava todo o resto. As flores que ele trazia da rua quando encontrava, como ele me fazia rir das suas brincadeiras infantis, do carinho que ele tinha pela mãe, ou de como ele ficava bonito em qualquer luz do dia. Ele parecia um bom rapaz criado sem freio no meio de lobos e utilizando as drogas como válvula de escape à sua realidade, quando os seus próprios pais lhe decepcionaram. Até onde eu entendi, o pai de Bernardo também usava drogas (controladamente) e o havia deixado junto com a mãe em uma parte da sua infância/adolescência. Vendo essas rachaduras, eu deixava de lado quando ele aparecia com os braços furados e quando encontrava ele nos bares com o nariz sujo de pó. Quando ele penhorou a minha bicicleta para poder comprar mais droga, eu perdoei e deixei pra lá. E quando ele fez a segunda vez, eu perdoei novamente e o consolei. Eu sempre gostei de animais, e nessa época eu já cuidava de alguns cachorros de rua que iam constantemente na porta de casa fazer a refeição do dia. Quando um desses cachorros morreu atropelado e Bernardo fez piada com isso durante uma semana, eu não liguei também. "Tudo bem, ele é só um pouco idiota". Eu entendia quando precisava bater na porta dos amigos dele pedindo que ele parasse de usar e reagisse para a vida. Entre brigas, discussões, traições, pedido de desculpas, remissões e humilhações, ambos seguiam fiel a ideia um do outro.

Eu já havia esquecido de Deus. Totalmente. A disciplina da minha família pouco me importava, ainda menos quando eles diziam que Bernardo não me merecia. "Quem me merecia, então? Diga-me!" Tudo era pecado para eles, sempre havia o pecado. "Por quê?! Explique na ciência, na sociologia e na história, por favor! Preciso de referências e de diálogos inteligentes." Eu sempre questionei o não, questiono até hoje, Se você não me der mil motivos, eu vou dizer que sim. Eu preciso estar ciente da minha teimosia numa tomada de decisão, senão cometo deslizes graves. Mesmo não dizendo com palavras, nosso subconsciente encontra o sentimento para agir - mesmo aquele sentimento não sendo a resposta certa para os nossos questionamentos. Como exemplo, na minha relação com Bernardo eu repetia o relacionamento entre meu pai e minha mãe.


Eu revivia a história dos dois, sem saber da dualidade. Meu pai e minha mãe tinham outro relacionamento quando ela ficou grávida de mim - quando eu voltei com o Bernardo pela segunda vez, eu estava em outro relacionamento também. Eu terminei tudo antes, mas eu já havia o traído no meu íntimo e terminando para ficar com outro (totalmente sem escrúpulos, mas eu aceitei estar indo atrás do meu grande amor, algo que minha mãe provavelmente deve ter sentido pelo meu pai). Naquela época, meu pai era o moreno alto bonito e sensual, irrepreensível, indomável e ficar bêbado era um dos seus passatempos preferidos - o Bernardo só não era moreno. Minha mãe ia trás do meu pai em bares e chegou a ir atrás do meu pai até num Carnaval noutra cidade para que ele voltasse para casa - eu ia atrás de Bernardo nos bares e no local onde ele marcava com os amigos para injetar morfina na veia. Uma criança vai aprender tudo o que você ensinar para ela. E ensinar não é necessariamente o que você fala, é o que você vive. "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" é a frase mais medíocre que você pode tentar ensinar a uma criança. Muitas pessoas me alertaram sobre os homens que escolhi, mas eu me desafiava, dizendo: eu posso fazer isso. "Eu posso mudar essa situação a meu favor". De nada me adiantava o ensino deles, se o que os via fazendo era trair, falar mal pelas costas, resolver tudo na gritaria, ser humilhado pelo outro, aceitar o mínimo e seguir adiante.


Antes e depois do Bernardo aparecer, um “amor” me levou a outro, sem dar muito espaço entre eles. Meu pai e a minha mãe sempre correram atrás dos seus amores. Eu sei que os meus foram suprimentos para a carência, mas não posso falar o que eles buscavam nos outros. Passei a não mais julgar a minha mãe e o meu pai quando fui capaz de ter empatia o suficiente para também entendê-los. Isso só foi possível quando comecei a analisar a funcionalidade do meu próprio cérebro, e confesso que não gostei muito do ser humano que havia me permitido ser. Ouvi em uma pregação a preletora dizer que ser cristão não é tirar a lama que está no outro, é tirar a lama que há dentro de você. A partir do momento que observei a minha lama, o entendimento fluiu de forma genuína. Afinal, observe que o que você mais odeia em Fulano é uma característica sua repudiada pelo seu próprio eu.

O meu pai sofreu duramente na sua infância, e ainda é difícil para ele digerir tudo isso, mesmo hoje. Ele não aprendeu bons exemplos com o próprio pai, então ele encontrou os próprios meios dentro do seu entendimento de como (tentar) criar uma filha descente. Ele fez o que pôde para me dar a melhor educação, sabendo que o ensino público não é tão bom assim, oferecendo algo que ele não teve quando mais novo. Meu pai nunca me bateu - a não ser por umas três chineladas que ele me deu uma vez que marcaram a minha vida, kkkk. Diante a liberdade que ele tinha antes de eu nascer, chega a dificuldade de estar preso a um novo grupo familiar, onde ele seria o chefe da casa. Era muita responsabilidade, e ele encontrou o equilíbrio onde pôde, dentro das suas limitações íntimas - conscientes ou não. Se um dia meu pai ler esse texto, espero que ele saiba o quando o amo e quanto ele é capaz de fazer tudo aquilo que almeja. Apesar de toda braveza, sei o quanto tem um bom coração.


A minha mãe é filha do meio. O filho do meio sempre entra naquele impasse de não ser o caçulinha da casa, e nem ter a atenção como o filho mais velho. A minha mãe sempre foi uma pessoa cheia de vida e cheia de amor. Vejo o quanto ficou perdida nessa "falta de atenção do filho do meio", com toda energia contida dentro dela. Sei pouco da história dos meus avós, mas por um período, provavelmente na infância da minha mãe, o meu avô foi muito parecido com o meu pai. Entende as somas? Entende que a sua funcionalidade vem de tudo o que você já viveu e que, muitas vezes, está preso no seu subconsciente fazendo com que suas decisões sejam pré-tomadas, antes que você tenha a consciência do seu "eu"? A Micheline, da escola, com toda a sua raiva e fúria, quando tarde a encontrei com sua nova família, com um semblante lindo no rosto, doce e sorridente, entendi que todo aquele circo na escola era tão bem armado quanto o meu. O que ela passou dentro da sua casa para agir daquele jeito na escola? Para toda ação, há uma explicação, mesmo o indivíduo sendo louco.

Minha juventude foi um processo confuso e apaixonado, minhas decisões não eram pensadas. Conquistei amigos melhores, já havia deixado de lado as questões da escola, mas o que fazia sentido para mim era trabalhar para que o Bernardo melhorasse antes que fosse tarde demais. Sabendo da expressão do rosto do meu pai quando apresentei o meu namorado "a la bandido" para ele e a minha família, eu não imagino qual foi a expressão que tomou o seu rosto quando descobriu que eu, com 17 anos, estava grávida de um dependente químico arrogante, ignorante e acomodado.

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